Crónicas de uma feiticeira (in)disciplinada IV: Descida ao mundo subterrâneo

Mais uma vez estou a descer pelo mundo em direcção aos subterrâneos.

Aproveito para relembrar o mito de Perséfone e Deméter (tradução minha):

Começo a cantar A de belos cabelos, Deméter, Deusa Terrível- a Ela e À de ancas elegantes que Aidoneus (Hades) raptou, a Ele dada por Zeus omnisciente, O dos raios trovejantes. Separada de Deméter, Senhora da espada dourada e dos frutos gloriosos, Ela estava a brincar com as de seio profundo, filhas de Oceanus e a juntar flores sobre um suave prado, rosas e flores de açafrão e lindas violetas, íris também e jacintos e o narciso que a Terra fazia crescer à mercê de Zeus e para agradar ao Anfitrião de Muitos, para ser uma armadilha para a rapariga que era como uma flor- uma flor maravilhosa e radiante. Era uma coisa de deslumbrar quer para os Deuses Imortais, quer para os mortais verem: das suas raízes cresciam umas cem flores e cheirava tão bem, que todo o vasto céu e toda a terra e todas as ondas salgadas do mar riam de alegria. E a rapariga estava admirada e estendeu as suas duas mãos para apanhar o brinquedo encantador; mas a terra de largos caminhos abriu-se aí, na planície de Nisa[1], e o Senhor Anfitrião de Muitos, com os seus cavalos imortais precipitou-Se sobre Ela, o Filho de Cronos, O que tem muitos nomes*. Ele apanhou-A relutante no seu carro dourado e levou-A embora em lamentos. Então Ela gritou com a Sua voz aguda, chamando o Seu pai, o Filho de Cronos, que é de todos o mais elevado e excelente. Mas ninguém, quer entre os Deuses Imortais, quer entre os mortais, ouviu a Sua voz, nem sequer as oliveiras que geravam frutos ricos: apenas a meiga Hécate, de véus brilhantes, a filha de Perseu, ouviu a rapariga na Sua caverna, e o Senhor Hélio, o filho radioso de Hiperião[2], enquanto Ela clamava pelo seu Pai, o Filho de Cronos.

Mas Ele estava distante, longe dos Deuses, no Seu templo onde muitos fazem as preces, e recebia doces oferendas dos mortais.

Assim, o Filho de Cronos, de muitos nomes, que é o Governante de Muitos e Anfitrião de Muitos, estava a raptá-La na ausência de Zeus na Sua carruagem dourada- a filha do seu próprio irmão e toda Ela relutante.

[Linha 33] E enquanto Ela, a Deusa, ainda via a terra e o céu estrelado e o mar de fortes correntes onde os peixes se reúnem, e os raios do Sol, a esperança acalmou todo o tumulto do Seu coração... e as alturas das montanhas e as profundezas do oceano ressoaram com a Sua voz imortal: e a Sua régia mãe ouviu-A.

Uma dor amarga invadiu o Seu coração e Ela rasgou o véu que cobria o Seu divino cabelo com as Suas mãos gentis: retirou o Seu escuro manto de ambos os ombros e lançou-Se com presteza, como um pássaro selvagem, sobre a terra firme e o mar cúmplice, procurando a Sua filha.

Mas ninguém Lhe dizia a verdade, nem Deus nem homem mortal; e dos pássaros do presságio nenhum Lhe apresentou notícias verdadeiras.

Então, durante nove dias a régia Deo vagueou sobre a terra com tochas em chama nas Suas mãos, tão amargurada que nunca provou ambrósia nem o doce trago do néctar, nem salpicou com água o Seu corpo.

Mas quando a décima esclarecedora madrugada chegou, Hécate, com uma tocha nas Suas mãos, foi ao Seu encontro, falou com Ela e contou-Lhe novidades:

«Régia Deméter, A que trazes as estações e Dadora de bons dons, que Deus do céu ou que mortal raptou Perséfone e dilacerou com mágoa o Teu doce coração?

Pois Eu ouvi a Sua voz, mas não vi com Meus próprios olhos quem foi.

Mas Eu digo-te com verdade e concisão tudo o que sei.

[Linha 59] Aqui está, disse Hécate.

E a filha de Reia de luxuriosos cabelos não Lhe respondeu, antes Se apressou prontamente com Ela, segurando tochas ardentes nas Suas mãos.

Assim chegaram à presença de Hélio, que é o vigia de Deuses e homens, e pararam em frente aos Seus cavalos: e a Deusa radiante inquiriu junto Dele:

«Hélio, tem-Me Tu ao menos em consideração, Deusa como sou, se qualquer palavra ou acção da Minha parte alegrou o Teu coração e o Teu espírito.

Através do ar estéril[3] Eu ouvi o grito comovedor da Minha filha a quem Eu trouxe ao mundo, doce rebento do Meu corpo e adorável em forma, como o de alguém violentamente arrebatado; embora com Meus olhos nada tenha visto.

Mas Tu- pois com Teus raios de luz olhas do ar mais elevado para toda a terra e mar- conta-Me com verdade o que aconteceu à Minha querida criança, se a viste em algum lado, que Deus ou mortal a arrebatou violentamente contra o Seu desejo e o Meu, e assim partiu.

Assim disse Ela.

E o filho de Hiperião respondeu-Lhe:

«Rainha Deméter, filha de Reia de sedosos cabelos, dir-Te-ei a verdade; pois Eu tenho-Te uma imensa reverência e sinto uma imensa pena na tua dor pela Tua filha de ancas estreitas.

Nenhum dos outros Deuses Imortais merece censura, apenas Zeus ajuntador de nuvens que A deu a Hades, o irmão do pai Dela, para ser chamada de Sua jovem esposa.

E Hades arrebatou-A e levou-A, chorando alto, na Sua carruagem em direcção ao Seu domínio de brumas e tristeza.

No entanto, Ó Deusa, cessa os Teus lamentos ruidosos e não guardes vão rancor incessantemente:

Aidoneus, o Governante de Muitos, não é marido impróprio entre os Deuses Imortais para a Tua filha, sendo nosso irmão e nascido na mesma altura: também, por honra, Ele possui aquela terça parte que recebeu quando a divisão foi feita inicialmente e é o Senhor nomeado daqueles entre quem vive.

Assim falou Ele, e chamou os Seus cavalos: e ao som da Sua voz eles transportaram a veloz carruagem para longe, como pássaros de longas asas.

[Linha 90] Mas uma amargura ainda mais terrível e selvagem invadiu o coração de Deméter e depois disso Ela ficou tão zangada com o Filho de Cronos das nuvens negras que evitou a reunião dos Deuses e o elevado Olimpo, e foi para as vilas e para os ricos campos dos homens, desfigurando a Sua forma, durante muito tempo. E nenhum homem ou mulher bem desenvolvida A conheciam quando A viam, até Ela chegar à casa do sábio Céleo[4] então senhor do Elêusis fragrante. Vexada no Seu querido coração, Ela sentou-Se perto do caminho para a nascente das Donzelas, da qual as mulheres daquele local costumavam tirar água, num sítio sombrio por cima do qual crescia um arbusto de oliveira. E Ela estava como uma anciã que é expulsa do mundo da gravidez e dos dons de Afrodite amante de grinaldas, como as enfermeiras do filho do rei que tratam da justiça, ou como as donas de casa nos seus átrios cheios de ecos. Ali as filhas de Céleo, filho de Elêusis, A viram, à medida que vinham pela água facilmente retirável, para a transportar em bilhas de bronze para a casa do seu querido pai: eram quatro e como deusas na flor da sua juventude, Calídice e Cleisídice e a amorosa Demo e Calitoé que era a mais velha delas todas. Não A reconheceram- pois os Deuses não são facilmente discernidos por mortais-, mas parando estupefactas junto Dela disseram palavras aladas:

«Velha mãe, donde és Tu dentre aqueles que nasceram há muito? Por que partiste da cidade e não te aproximas das casas? Pois lá, nos átrios sombrios, estão mulheres da mesma idade que Tu, e outras mais novas; e dar-Te-iam as boas-vindas tanto por palavras quanto por acções.»

[Linha 118] Assim falaram elas. E Ela, essa rainha entre Deusas, respondeu-lhes dizendo: «Salvé, queridas crianças, quem quer que sejais, do sexo feminino. Eu contar-vos-ei a Minha história; pois não é impróprio que Eu deva contar-vos verdadeiramente o que perguntais. Doso é o Meu nome, pois a Minha mãe por direito deu-Mo. E agora vim de Creta sobre o dorso largo do mar- não por vontade própria; mas piratas trouxeram-Me dali pela força contra a Minha vontade. Depois puseram-se a caminho com o seu veloz engenho para Tórico, e estas mulheres acostaram em multidão e também os homens, e começaram a preparar uma refeição junto das amarras da popa do navio. Mas o Meu coração não ansiava por comida agradável, e Eu fugi secretamente através do país escuro e escapei aos Meus senhores, para que não Me levassem por comprar para o outro lado do oceano, para ganharem aí um preço por Mim. E assim vagueei e cheguei aqui: e não sei de todo que terra é esta ou que gente aqui vive. Mas possam todos Aqueles que vivem no Olimpo dar-vos maridos e nascimento de crianças como os pais desejam, para que tenhais compaixão de Mim, donzelas, e Me mostreis claramente para que Eu possa aprender, queridas crianças, para que casa de homem e mulher possa eu ir, para trabalhar para eles alegremente nas tarefas que pertencem a uma mulher da Minha idade. Bem posso Eu tomar conta de uma criança recém-nascida, segurando-a nos Meus braços, ou tomar conta da casa, ou fazer a cama do Meu senhor num recesso de câmara bem construída, ou ensinar às mulheres o seu trabalho.»

Assim disse a Deusa. E logo a seguir a donzela por casar Calídice, a mais formosa das filhas de Céleo, Lhe respondeu, dizendo:

[Linha 147] «Mãe, o que os Deuses nos enviam, nós mortais necessariamente aceitamos, embora soframos; pois Eles são muito mais fortes do que nós. Mas agora vou instruir-te claramente, dizendo-te os nomes dos homens que possuem grande poder e honra aqui e que são líderes entre o povo, guardando o solidéu das torres da nossa cidade com a sua sabedoria e os seus julgamentos verdadeiros: há o sábio Triptólemo[5] e o sábio Díocles e o sábio Políxono e Eumolpo[6] e Dóliques sem mácula e o nosso próprio valoroso pai. Todos estes têm esposas que tomam conta da casa, e nenhuma delas, mal ponha os olhos em ti, te desonraria e te expulsaria de sua casa, antes te daria as boas-vindas; pois de facto tu és como os Deuses. Mas se quiseres, fica aqui, e nós iremos a casa do nosso pai e relataremos a Metanira, a nossa mãe de seio profundo, todo este assunto, para que ela possa dizer-te que venhas antes para a nossa casa do que vás procurar a casa de outros. Ela tem um único filho, nascido tardiamente, que está a ser cuidado na nossa casa bem construída, uma criança muito desejada e bem-vinda: se pudesses criá-lo até que ele atingisse toda a medida da juventude, toda a mulher que te visse te invejaria logo, tais os presentes que a nossa mãe te daria pela sua criação.»

Assim falou ela: e a Deusa inclinou a Sua cabeça em concordância. E elas encheram as suas vasilhas brilhantes com água e carregaram-nas rejubilantes. Depressa chegaram à grande casa do seu pai e logo contaram à sua mãe aquilo que tinham visto e ouvido. Então, ela mandou-as ir ter com toda a rapidez com a estrangeira para convidá-la a vir para um contrato sem medida. Como corças ou novilhas em tempo de Primavera, quando saciadas com o pasto, vagueando por um prado, assim elas, segurando as dobras das suas encantadoras vestes, apressaram-se pelo caminho sombrio, e o seu cabelo, como uma flor de açafrão, ondulava sobre os seus ombros. E elas encontraram a Deusa benévola perto do atalho onde A tinham deixado antes, e conduziram-Na à casa do seu querido pai. E Ela caminhou atrás delas, com pesar no Seu coração, com a Sua cabeça velada e usando uma capa escura que ondulava sobre os Seus pés magros.

[Linha 184] Depressa chegaram à casa do abençoado Céleo e atravessaram o pórtico até onde se sentava a sua nobre mãe, perto de um pilar do tecto quase acabado, segurando o seu filho, um tenro enxerto, no seu colo. E as raparigas correram para ela. Mas a Deusa caminhou para a soleira: e a Sua cabeça chegou ao tecto e Ela encheu o corredor com uma radiância divina. Então, maravilha e medo pálido tomaram posse de Metanira, e ela levantou-se do seu assento perante Deméter e pediu-Lhe para Se sentar. Mas Deméter, A que traz as estações e os Dons perfeitos, não Se sentava no assento brilhante, mas antes ficou silenciosa com olhos encantadores a olhar para baixo até que uma jovem serva cuidadosa puxou um banco para Ela e pôs por cima dele um velo prateado. Então Ela sentou-Se e segurou o Seu véu nas mãos diante da Sua face. Ela ficou sentada no banco*durante muito tempo sem falar por causa da Sua dor, e não saudou ninguém por palavras ou sinais, mas descansou, nunca sorrindo, e não provando comida ou bebida porque Ela sentia a ausência da Sua filha de seio profundo, até que a jovem serva cuidadosa- que Lhe agradou mesmo depois- A tocou com muitos gracejos e ironias a sorrir, a rir e a alegrar o Seu coração. Então, Metanira encheu um copo com vinho doce e ofereceu-Lho; mas ela recusou-o, dizendo que Lhe era interdito beber vinho tinto, antes pedindo-lhes que misturassem alguma comida e água com menta verde e que lhe dessem assim de beber. E Metanira misturou a bebida e deu-A à Deusa como Ela havia pedido. Assim, a grande rainha Deo recebeu-a para observar o sacramento*.

[Linha 212] E de todas elas, a bem adornada Metanira começou primeiro a falar: «Saudações, senhora! Pois eu creio que és de nascimento nobre e não de nascimento vulgar; dignidade e graça estão verdadeiramente conspícuas nos teus olhos como nos olhos dos reis que administram a justiça. No entanto, nós, mortais, suportamos necessariamente o que os Deuses nos enviam, embora estejamos tristes; pois um jugo está lançado sobre os nossos pescoços. Mas agora, já que chegaste aqui, terás o que eu te possa dar: e cria-me esta criança que os Deuses me deram em tão avançada idade e para além da minha esperança, um filho muito pedido. Se o criares até que ele preencha toda a medida da juventude, qualquer mulher que te veja te invejará desde logo, tão grande recompensa te darei pela sua criação.»

Então Deméter de cabelos abundantes respondeu-lhe: «E também a ti, senhora, todas as saudações, e possam os Deuses abençoar-te! Alegremente criarei o rapaz no meu seio, como me pedes, e tomarei conta dele. Nunca, Eu creio, através de qualquer distracção da sua ama poderá feitiçaria alguma magoá-lo ou mesmo o Verme: pois Eu conheço um encanto muito mais forte do que o do Verme e conheço uma excelente protecção contra a feitiçaria prejudicial*

Quando Ela tinha assim falado, tomou a criança no Seu colo fragrante com as Suas mãos divinas: e a mãe da criança estava contente no seu coração. Assim a Deusa criou no palácio Demofoonte[7], filho perfeito do sábio Céleo gerado pela bem adornada Metanira. E a criança cresceu como um ser imortal, nem alimentado com comida nem nutrido pelo peito: pois de dia Deméter de coroa abundante untava-o com ambrósia como se ele fosse descendência de um Deus e respirava suavemente sobre ele enquanto o segurava ao colo. Mas à noite Ela escondia-o como a uma condenação no coração do fogo, desconhecido para os seus queridos pais. E gerava grande deslumbramento entre estes que ele crescesse para além da sua idade; pois ele era a própria imagem dos Deuses. E Ela teria feito com que ele fosse imortal e nunca envelhecesse, se Metanira bem vestida, na sua distracção, não tivesse ficado de vigília à noite na sua câmara de doces fragrâncias e espiado. Mas ela gemeu e bateu nos seus quadris, pois temia pelo seu filho e estava grandemente desgostosa no seu coração; assim lamentou-se e murmurou palavras aladas:

[Linha 248] «Demofoonte, meu filho, a estrangeira enterra-te no meio do fogo profundo e traz-me amargura e grande sofrimento.»

Assim falou ela, chorando. E a Deusa Brilhante, Deméter de coroa encantadora, ouviu-a, e ficou furiosa com ela. Assim, com as Suas mãos divinas Ela arrancou do fogo o filho querido que Metanira tinha dado à luz no palácio sem esperar, e atirou-o para o chão; pois estava com uma zanga terrível no Seu coração. Depois Ela disse a Metanira bem adornada:

«Fracos de espírito e incapazes de prever o vosso quinhão de bem ou mal futuro sois vós, mortais. Pois agora, no teu descuido, infligiste uma loucura para além de toda a cura; pois- seja testemunha o voto dos Deuses, a água sem descanso do Estige[8]- Eu teria feito do teu querido filho um imortal e jovem todos os seus dias e teria derramado sobre ele honra para todo o sempre, mas agora ele não pode deixar de escapar à morte e aos Fados. No entanto, uma honra sem mácula deverá permanecer para sempre sobre ele, porque esteve sobre os Meus joelhos e dormiu nos Meus braços. Mas, à medida que os anos avançarem e quando ele estiver na flor da idade, os filhos de Elêusis deverão gerar guerra e batalhas terríveis uns com os outros continuamente. Lo! Eu sou aquela Deméter que tem uma porção de honra e que é a maior ajuda e causa de alegria para os Deuses Imortais e para os homens mortais. Mas agora, deixa que toda a gente construa para Mim um grande templo e um altar debaixo dele e sob a cidade e a sua muralha sobre a elevação que domina Calícoros. E Eu mesma ensinarei os Meus ritos, para que daqui em diante vós possais reproduzi-los com reverência e assim ganhar o favor do Meu coração.»

[Linha 275] Quando assim disse, a Deusa alterou a Sua estatura e aparência, eliminando a idade: a beleza rodeou-A e uma fragrância encantadora flutuou a partir das Suas vestes bem perfumadas, e do divino corpo da Deusa uma luz brilhou para a distância, enquanto tranças douradas se espalharam sobre os Seus ombros, de modo que a sólida casa ficou cheia de luz e de trovões. E assim Ela saiu do palácio.

E logo os joelhos de Metanira ficaram fracos e ela permaneceu sem fala por longo tempo e não se lembrou de apanhar o seu filho tardiamente nascido do chão. Mas as s irmãs de Demofoonte ouviram o seu choro lamentoso e saíram das suas camas bem feitas: uma delas pegou na criança e pô-la no seu colo, enquanto outra reavivou o fogo, e uma terceira apressou-se com um andar delicado para trazer a sua mãe da sua câmara bem perfumada. E elas reuniram-se em redor da criança que lutava e lavaram-na, abraçando-a com amor; mas ele não ficou confortado, porque amas muito menos aptas o seguravam agora.

Toda a noite elas procuraram apaziguar a Deusa Gloriosa, tremendo de medo. Mas, assim que a madrugada começou a surgir, elas contaram ao poderoso Céleo todas as coisas sem um desvio, como a Deusa Deméter de encantadora coroa lhes havia exigido. Assim, Céleo chamou a gente inumerável para uma assembleia e pediu-lhes que fizessem um templo perfeito para Deméter de abundantes cabelos e um altar sobre a elevação. E a gente obedeceu-lhe prontamente e ouviu com muita atenção a sua voz, fazendo como ele dizia. Quanto à criança, cresceu como um ser imortal.

[Linha 301] Quando terminaram de construir e se afastaram da sua fadiga, foram cada um para sua casa. Mas Deméter de cabelos dourados sentava-Se lá isolada de todos os Deuses Abençoados e ficava, desolada com a saudade da filha de seio profundo. Então, Ela causou um ano dos mais terríveis e cruéis para a humanidade sobre a Terra que tudo nutre; o solo não fazia com que a semente germinasse, pois Deméter de rica coroa mantinha a semente escondida. Nos campos, os bois conduziram muitos arados curvos em vão, e muita cevada branca foi lançada à terra sem qualquer proveito. Assim, Ela teria destruído toda a raça do homem com uma fome cruel e teria roubado Aqueles que habitam o Olimpo do seu direito glorioso a oferendas e a sacrifícios, se Zeus não tivesse percebido e marcado tudo isto no Seu coração. Primeiro, Ele enviou Íris de asas douradas para chamar Deméter de ricos cabelos, encantadora na Sua forma. Assim ordenou Ele. E Ela obedeceu ao Filho de Cronos de nuvens escuras, e apressou-Se com pés velozes pelo espaço entre Eles. Ela chegou à fortaleza do fragrante Elêusis, e aí, encontrando Deméter de capa escura no Seu templo, falou-Lhe, murmurando palavras aladas:

«Deméter, o Pai Zeus, cuja sabedoria dura para sempre, chama-te para Te juntares às tribos dos Deuses Imortais: portanto, vem, e não deixes que a mensagem que trago de Zeus deixe de ser obedecida.»

Assim disse Íris, implorando-Lhe. Mas o coração de Deméter não se comoveu. Mais uma vez o Pai enviou todos os Abençoados e Deuses Imortais, para além de Íris: e Eles vieram, um após outro, e continuaram a chamá-La e a oferecer-Lhe muitos presentes belíssimos e todos os direitos que Ela quisesse escolher entre os Deuses Imortais. Contudo, ninguém foi capaz de persuadir a Sua mente e a Sua vontade, tão irada estava Ela no Seu coração; mas Ela rejeitou teimosamente todas as Suas palavras: pois Ela tinha feito um voto de que nunca poria um pé no Olimpo fragrante nem deixaria que a fruta crescesse do solo, até que pusesse os olhos na Sua própria filha de linda face.

[Linha 334] Agora, quando Zeus, O dos trovões que ressoam alto, ouviu isto, Ele enviou o Assassino de Argo cujo bastão é de ouro para Érebo[9], para que, tendo ganhado a Hades com palavras doces, Ele pudesse conduzir a casta Perséfone do nevoeiro agoirento para a luz para Se juntar aos Deuses, e para que a Sua mãe A pudesse ver com os Seus próprios olhos e parasse com a Sua zanga. E Hermes obedeceu, e, deixando a casa do Olimpo, depressa desceu com rapidez para os sítios obscuros da Terra. E Ele encontrou o Senhor Hades na Sua casa sentado sobre um assento, e a Sua tímida companheira com Ele, muito relutante, porque Ela sentia saudades da Sua Mãe. Mas Ela estava muito distante, ponderando os Seus propósitos já sabotados pelas acções dos Deuses Abençoados. E o forte Assassino de Argo aproximou-Se e disse:

«Hades de cabelo escuro, Governador dos Idos, Pai Zeus pede-Me que leve a nobre Perséfone de Érebo até aos Deuses, para que a Sua mãe possa vê-La com os Seus olhos e cessar a Sua zanga terrível com os Imortais; pois agora Ela planeia uma acção horrível, a de destruir as tribos mais fracas dos homens nascidos na Terra ao manter a semente escondida por baixo da Terra, e assim marcar o fim das honras dos Deuses Imortais. Pois Ela guarda um rancor temível e não convive com os Deuses, mas senta-Se isolada no Seu templo fragrante, permanecendo na fortaleza rochosa de Elêusis.»

Assim disse Ele. E Aidoneus, Governador dos mortos, sorriu ameaçadoramente e obedeceu à ordem de Zeus o Rei. Pois prontamente apressou a sábia Perséfone, dizendo:

[Linha 360] «Vai agora, Perséfone, para a Tua Mãe de vestes escuras, vai, e sente-Te gentil no Teu coração relativamente a Mim: não estejas tão excessivamente triste; pois Eu não serei um marido indigno de Ti entre os Deuses Imortais, Eu que sou o próprio irmão do Pai Zeus. E enquanto Tu estiveres aqui, Tu governarás tudo o que vive e que se move e terás os maiores direitos de entre os Deuses Imortais: aqueles que Te defraudaram e não Te aplacarem o Poder com oferendas, realizando ritos com reverência e pagando presentes apropriados, serão punidos para sempre.»

Quando Ele disse isto, a sábia Perséfone ficou cheia de alegria e rapidamente Se apressou. Mas Ele, de Sua parte, deu-Lhe secretamente doces sementes de romã a comer, assegurando-Se de que Ela não pudesse permanecer continuamente com Deméter grave e de vestes escuras. Então, Aidoneus, o Governador de Muitos, preparou abertamente os Seus cavalos imortais debaixo das carruagens douradas. E Ela montou na carruagem e o forte Assassino de Argo tomou as rédeas e o açoite nas Suas queridas mãos e conduziu a carruagem para fora da entrada, com os cavalos a apressarem-se prontamente. Rapidamente eles atravessaram o seu longo caminho, e nem o mar nem as águas dos rios nem os verdes vales estreitos entre duas colinas nem os picos das montanhas barraram a marcha dos cavalos imortais, mas antes eles fendiam o profundo ar em cima à medida que avançavam. E Hermes trouxe-os ao sítio onde Deméter de rica coroa estava e parou-os ante o Seu templo perfumado.

[Linha 384] E quando Deméter os viu, apressou-Se tal como uma Ménade através de uma montanha de denso arvoredo, ao passo que Perséfone, por outro lado, quando avistou os doces olhos da Sua Mãe, deixou a carruagem e os cavalos, e saltou para baixo para correr para Ela, e, caindo sobre o Seu pescoço, abraçou-A. Mas enquanto Deméter ainda segurava a Sua querida criança nos braços, o Seu coração subitamente alertou-A para alguma armadilha, e assim Ela teve um grande medo e cessou de acariciar a Sua filha e perguntou-Lhe de uma vez: «Minha filha, conta-Me, certamente que não provaste nenhuma comida enquanto estiveste lá em baixo? Fala e não escondas nada, deixa que ambas saibamos. Pois se não comeste, regressarás do repugnante Hades e viverás comigo e com o Teu Pai, o Filho de Cronos de escuras nuvens, e serás honrada por todos os Deuses Imortais; mas, se provaste comida, terás de regressar aos sítios secretos da Terra, para lá ficares uma terça parte das estações de cada ano: porém, nos outros dois terços, estarás comigo e com os outros Deuses Imortais. Mas quando a Terra florescer com todo o tipo de flores na Primavera, então virás mais uma vez do reino da escuridão e da melancolia para ser uma maravilha para os Deuses e para os homens mortais. E agora conta-Me como Ele Te raptou para o reino de trevas e de tristeza, e por que truque Te iludiu o forte Anfitrião de Muitos?»

[Linha 405] Então, a bela Perséfone respondeu-Lhe deste modo: «Mãe, dir-Te-ei tudo sem erro. Quando Hermes portador da sorte veio, rápido mensageiro do Meu Pai, Filho de Cronos e dos Outros Filhos do Céu, pedindo-Me que regressasse de Érebo para que Tu Me pudesses ver com os Teus olhos e assim cessar a Tua zanga e a Tua ira temível contra os Deuses, Eu apressei-Me logo de alegria; mas Ele, secretamente, pôs na Minha boca doce comida, uma semente de romã, e forçou-Me a provar contra a Minha vontade. Também Te direi como Ele Me raptou pelo desígnio secreto do Meu Pai, o Filho de Cronos, e Me levou para baixo das profundezas da Terra, e relatarei todo o assunto como Me pedes. Todos nós estávamos a brincar num prado encantador, Leucipo e Feno e Electra e Iante[10] e Mélida também e Iaco[11] com Rode e Calírroe[12] e Melobosis e Tíquico e Ocírroe[13], grácil como uma flor, Criseide[14], Ianeira, Acasto[15] e Admeto[16] e Ródope[17] e Plutão e a encantadora Calipso; Estige também lá estava e Urânia[18] e a amorosa Galaxaura com Pallas que desperta batalhas e Artémis que Se deliciava com setas*. Nós brincávamos e recolhíamos doces flores com as nossas mãos, doces flores de açafrão misturadas com íris e jacintos, e botões de rosa e lírios, maravilhosos de se ver, e os narcisos que a vasta Terra fez crescer amarelos como a flor do açafrão. Isso colhi Eu na minha alegria; mas a Terra abriu-se, e aí o forte Senhor, o Anfitrião de Muitos, avançou e na Sua carruagem dourada levou-Me embora, toda relutante, para debaixo da Terra: então Eu chorei com um grito agudo. Tudo isto é verdade, embora me entristeça contar o sucedido.»

[Linha 434] Então, assim, com os corações unidos, elas saudaram a alma e o espírito Uma da Outra com muitos abraços: os Seus corações tiveram alívio das Suas mágoas enquanto cada uma tomava e dava alegria.

Então Hécate de cabelos brilhantes aproximou-Se delas, e frequentemente abraçou a Filha da Sagrada Deméter: e dessa altura em diante a Senhora Hécate foi ministra e companheira de Perséfone.

E Zeus que tudo vê mandou-Lhes uma mensageira, Reia de abundantes cabelos, para trazer Deméter de capa escura para se juntar às famílias dos Deuses: e Ele prometeu dar-Lhe quaisquer direitos que Ela escolhesse entre os Deuses Imortais e concordou que a Sua Filha fosse para baixo durante uma terça parte do ano que circula para a escuridão e a melancolia, mas que nas outras duas partes do ano vivesse com a Sua Mãe e com os outros Deuses Imortais. Assim ordenou Ele. E a Deusa não desobedeceu à mensagem de Zeus; velozmente desceu dos picos do Olimpo e foi para a zona plana de Rharus, anteriormente rica e fértil no cultivo de cereal, mas então sem frutos, pois permanecia vazia e sem nada, pois o grão branco havia sido escondido pelo desígnio de Deméter de ancas elegantes. Mas depois, à medida que a Primavera avançava, Rharus estaria a ondular suavemente com longas barbas de milho e os seus sulcos estariam cheios de grão sobre o solo, enquanto outros estariam já enfaixados. Ali alterou Ela em primeiro lugar, vinda do ar infrutífero de cima: e contentes ficaram os Deuses ao verem tudo isto e celebraram no Seu coração. Então Reia de cabelos brilhantes disse a Deméter:

[Linha 459] «Vem, Minha Filha; pois Zeus que tudo vê, O dos trovões que ressoam alto, chama-Te para que Te juntes à família dos Deuses, e prometeu dar-Te todos os direitos que forem do Teu agrado entre os Deuses Imortais, e ordenou que a Tua Filha passasse uma terça parte do ano que circula nas trevas e na tristeza, mas também que nas outras duas partes do ano Ela estivesse conTigo e com os outros Deuses Imortais: assim Ele declarou que será e curvou a Sua cabeça como penhor. Mas vem, Minha Criança, obedece, e não estejas permanentemente zangada com o Filho de Cronos de nuvens negras; mas antes aumenta, daqui em diante, o fruto que dá vida aos homens.»

Assim falou Reia. E Deméter de coroa rica não recusou mas fez logo com o que o fruto nascesse das terras ricas, para que toda a vasta Terra estivesse carregada de folhas e frutos. Então Ela foi, e aos reis que administram a justiça, Triptólemo e Díocles, o condutor de cavalos, e para os valentes Eumolpo e Céleo, líder da gente, Ela mostrou a conduta dos Seus ritos e ensinou-Lhes todos os Seus mistérios, a Triptólemo e Políxono e também a Díocles- horríveis mistérios que ninguém pode transgredir, espiar ou murmurar, pois o profundo respeito pelos Deuses barra a voz. Feliz é o que entre os homens da Terra viu estes mistérios; mas o que é não-iniciado e que não toma parte deles, nunca tem um quinhão de coisas como as boas uma vez que esteja morto, no meio da escuridão e da melancolia.

[Linha 483] Mas quando a Deusa Brilhante os ensinou a todos, foram para o Olimpo para a reunião dos outros Deuses. E aí Eles permanecem ao lado de Zeus que se delicia com trovoadas, terríveis e reverendas Deusas. Abençoado directamente é aquele de entre os homens na Terra a quem eles amam livremente: brevemente mandam Eles Plutão como convidado para a sua grande casa, Plutão que dá prosperidade aos homens mortais.

E agora, Rainha da terra do doce Elêusis e de Paros[19] rodeada pelo mar e do Antron rochoso, Senhora, A que trazes as estações, Rainha Deo, sê graciosa, Tu e a Tua Filha toda bela Perséfone, e pela minha canção garante-me a substância que alegra o coração. E agora vou relembrar-Te e a outra canção também.



[1] N.T.- Nisa, cidade e montanha da Índia consagrada a Baco.

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[2] N.T.- Hiperião, pai do Sol.

[3] N.T.- Sem frutos.

[4] N.T.- Céleo, rei de Elêusis.

[5] N.T.- Triptólemo, filho de Céleo e Metanira; inventor da agricultura.

[6] N.T.- Eumolpo, filho de Neptuno ou de Museu e discípulo de Orfeu, que trouxe para a Ática o mistério dos Elêusis e a cultura da vinha.

* Deméter escolhe o assento mais baixo, supostamente por ser o mais adequado à condição que assumiu, mas na realidade porque na Sua dor Ela recusa todos os confortos.

* Um acto de comunhão- o beber da poção (kykeon) aqui descrito- era uma das partes mais importantes dos Mistérios de Elêusis, representando as dores da Deusa.

* O Verme é provavelmente um dos nomes populares (no estilo do «Sem Ossos» de Hesíodo) para o verme que se pensava causar a queda e a dor de dentes.

[7] N.T.- Demofoonte, mais tarde companheiro de Eneias.

[8] N.T.- Estige, rio dos Infernos ou os Infernos.

[9] N.T.- Érebo, Reino dos Infernos.

[10] N.T.- Jovem cretense, filha de Telestes e esposa de Ífis.

[11] N.T.- Iaco, outro nome de Baco, Deus do vinho.

[12] N.T.- Calírroe, filha de Aqueloo.

[13] N.T.- Ocírroe, ninfa.

[14] N.T.- Criseide, filha de Crises, Sumo-Sacerdote de Apolo.

[15] N.T.- Acasto, filho de Pélios.

[16] N.T.- Admeto, rei das Feras na Tessália, rei de Molossos.

[17] N.T.- Ródope, Rainha dos Trácios.

[18] N.T.- Urânia, Musa da Astronomia.

* A lista de nomes é baseada- com cinco nomes a mais- em Hesíodo, Teogonia, 349 ff.

[19] N.T.- Paros, uma das Ilhas Cíclades, célebre pelo seu mármore.


Posted bySara Timóteo at 18:59  

1 comments:

Dr. Theamat disse... 20 de outubro de 2009 às 15:12  

Excelente texto. Gosto de mitologia greco/romana mas nunca persegui o seu estudo aprofundado.

Compreendi o conteúdo do mito, mas não compreendi o porquê de estar relacionado com a sua descida pelo mundo aos subterrâneos. Algo muito pessoal, posso supor.

É uma história que acaba bem, depois de sacrifícios e negociações.
Todas as mudanças são carregadas de sacrifícios, sendo "apenas" uma questão de saber que, o que sacrificamos, nos permite avançar e melhorar, a nós e/ou ao que nos rodeia.

Suponho também que assim será consigo.

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