EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE/NEAR DEATH EXPERIENCES

Como é viver uma experiência de quase-morte? De que forma abala a nossa crença? Como poderá contribuir para uma nova perspectiva de tudo?

A primeira, contou-me a minha avó (existe sempre esta figura irónica da avó que desvenda os caminhos dos mistérios, qual Hécate com as Suas tochas da verdade), não é corroborada pelos meus pais. Penso que há coisas que os pais esquecem a troco da sua sanidade mental. Será que esta experiência existe sem que os meus pais ou eu nos lembremos dela? A minha avó (entretanto falecida) contou-me que quase sucumbi a uma disenteria. Segundo ela, foi a partir daí que comecei a ver os espíritos convidados para as séances lá em casa em nome do Dr. Sousa Martins.

Segunda vez. 19 anos e a caminho de Erasmus, uma experiência que me traria ao Paganismo. Foi descoberto um «quisto dermóide» e fui operada. Quando acordei, o meu corpo tinha sido submetido a mais duas cirurgias sem o meu conhecimento (e consentimento). Lembro-me de estar a sangrar e de o sangue estar a molhar a maca. Pedi ajuda para limpar e estancar o sangue e... de repente (silêncio) ouvi vozes a dizerem o seguinte «ela está a ir-se abaixo», «traz isso depressa», «ela não está a reagir», «não temos tempo para isso agora». Vozes sem rosto após uma cirurgia. Não vi ninguém, não tive a sensação de túnel nem fui recebida por entes espirituais: apenas um silêncio de pedra que me rodeava, certamente de paz, mas que se estendia ao meu corpo que deixou de existir naquele momento. Existia consciência de alguém que, sem preocupações, observava as vozes, mas que estava como que de olhos fechados, ignorando visualmente o que se passava à sua volta (talvez por saber que me lembraria de tudo?).

Terceira vez. Outra cirurgia acompanhada por um choque emocional enorme de rejeição. Fiz uma viagem para assistir ao casamento de uma prima, uma viagem que jamais deveria ter feito. Devo ter sorrido algumas vezes enquanto me equilibrava sobre os saltos altos. Despedi-me da minha avó (a que me contou as histórias de quando eu era pequena) porque sabia que ela ia morrer e que eu não voltaria a vê-la. Disse que gostava muito dela e agradeci-lhe tudo o que ela fez por mim. O seu tom amarelado na face dizia tudo aquilo que eu precisava de saber. Ela estava muito fraca. Entretanto, o meu corpo continuou a sangrar sem que eu disso me apercebesse. Contraí uma constipação. À noite, no hotel, com os pulmões cheios de líquido, apercebi-me, desta vez, de algo para além de mim, uma presença calma e no entanto que se fazia sentir com cada vez maior intensidade, alguém para ME LEVAR EMBORA. Reconciliei-me com tudo e esperei. Mas, pelos vistos, a minha hora ainda não tinha chegado. Não vi nem ouvi nada de estranho, mergulhei nesse sono de silêncio e na manhã seguinte acordei chorosa e esfomeada.

Quarta vez. Os pulmões cheios de líquido. Desta vez, vi uma imagem minha, bastante mais velha (e estranhamente parecida com essa minha avó) a morrer devido a problemas respiratórios.

O que é que estas experiências significam para cada um de nós? Para mim, podem ser analisadas em dois níveis distintos:
a) desmistificação do que nos espera no limiar da morte e a percepção de que essa experiência, embora tendo em comum o fim para que se dirige (a morte) é extremamente pessoal e em muito depende da evolução e do trabalho que cada alma desempenhou durante a sua estadia;
b) um outro olhar quando se regressa, mais desapaixonado, sobre as pequenas coisas que nos preocupam. A consciência de que somos mortais pode desencadear uma maior atenção à vida, pois a verdade é que sabemos, com todo o nosso corpo e emoção e alma, que pode não existir amanhã - e isto é verdade em todos os dias da nossa vida.

Cynthia



Posted bySara Timóteo at 08:31 0 comments