Crónicas de uma feiticeira (in)disciplinada III: O Medo
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Os nossos medos definem em muito a nossa Senda. Espiritualmente, aquilo que evitamos constitui precisamente o que temos de enfrentar. No entanto, existe um Medo especial: o nosso Terror maior, a parte da Sombra (em terminologia jungiana) que connosco contacta e que nos paralisa, destrói, afugenta ou... se soubermos vencer o desafio, transforma a nossa vida.
No outro dia, o sol punha-se e os ventos traziam notícias de longe. Empoleirada no cimo de uma árvore, observava um doido que se escondia entre os arbustos da mata, sem suspeitar que eu estava a 5 metros do chão. Senti-me segura e feliz. Fechei os olhos e respirei o ar livre de medo, sozinha e contudo cheia de vida em meu redor e dentro de mim.
Sinto que o medo empesta a nossa vida. Sinto o seu cheiro quando, no trabalho, os colegas me dizem para não agir, pois a minha acção pode gerar reclamação. Nos transportes públicos, todos se afastam quando alguém usa uma máscara, tosse ou se assoa. Na rua, as mulheres andam aos pares ou perto de locais públicos porque têm medo de ser molestadas. Os olhares que trocamos são lúgubres, desconfiados, tristemente desprovidos de qualquer tipo de empatia.
E na Magia? Qual a construção que fazemos da nossa personalidade mágica? Entramos no círculo sagrado com a nossa bagagem de limitações, medos e mesquinhez? Entramos para nos desnudarmos perante os Deuses? Pois todas as máscaras caem no círculo sagrado - e o segredo é que mesmo assim somos o que somos. Eventualmente merecedores, se a nossa honestidade superar as pequenas mentiras que contamos a nós próprios para nos sentirmos mais do que somos na realidade.
Pessoalmente, prefiro não fazer um rito se não consegui acalentar a minha chama interna o suficiente para que esta brilhe de modo desimpedido e claro perante os Antigos... Consideraria uma vergonha fazê-lo. Se não sei tomar conta de mim, para quê pedir ajuda aos Deuses que têm (com franqueza) mais que fazer?
O MEDO torna-te prisioneiro. Esta frase de Sofia Sá da Bandeira que li numa revista feminina ficou-me para sempre gravada na memória.
Mas claro que não se referia a um medo comum, desses medos que todos os dias nos vão encarcerando numa prisão dourada. Haverá sempre o medo quotidiano, como o medo que senti quando o doido se apercebeu de que eu estava no cimo da árvore e tentou subir para onde eu estava.
O Medo que nos come a alma pode constituir-se como a fonte maior de transformação da nossa vida. Se o identificarmos e o enfrentarmos, vencendo o desafio, saberemos que apesar de transformados somos nós e que perdendo o nosso Ego encontramos o nosso Eu.
Já passei por tudo o que defini (ainda muito pequenina) como o meu maior medo. E sobrevivi. Aceitei a perda. Cresci e encontrei alternativas. Por vezes, contra todas as probabilidades, tornei-me exímia naquilo que o meu medo me impedia de desenvolver.
Magicamente, como construímos o Medo? Como o enfrentamos? Recordo-me de uma ocasião em que, numa arena, lutava com um Ancestral que se ria e, por mais que eu tentasse lutar, ele era sempre superior, mais rápido, mais inteligente, mais astuto do que eu... É o Medo que nos traz a verdadeira dimensão dos nossos limites e também das nossas forças...
Nessa arena interna refiz-me de golpes imensos, dores que um dia pensei que seriam incomportáveis para mim. E afinal fui eu que me tornei mais aberta e tolerante depois de aprender com elas...
Neste momento, o Medo mudou para mim. Agora pertence ao Todo... medo de que cessem as memórias dos que habitam e habitaram a Terra antes de nós, medo de que se extinga a chama e que os homens com memória se tornem apáticos, indolentes e sem visão... medo de que a Arte pereça no Universo...
Identifiquem o vosso Medo e tomem a atenção necessária para o acarinhar. Depois enfrentem-no e aprendam a amar essa Sombra que se manifesta. Aceitar e estar presente combatendo permitem superar e transformar a paralisia que nos tolda a mente perante o Medo. Com uma vantagem secundária: afasta-nos da loucura. Prefiro ser a do cimo da árvore do que o louco que se diz com os pés bem assentes no chão - pelo menos sempre vejo mais longe.
Em liberdade,
Cynthia
No outro dia, o sol punha-se e os ventos traziam notícias de longe. Empoleirada no cimo de uma árvore, observava um doido que se escondia entre os arbustos da mata, sem suspeitar que eu estava a 5 metros do chão. Senti-me segura e feliz. Fechei os olhos e respirei o ar livre de medo, sozinha e contudo cheia de vida em meu redor e dentro de mim.
Sinto que o medo empesta a nossa vida. Sinto o seu cheiro quando, no trabalho, os colegas me dizem para não agir, pois a minha acção pode gerar reclamação. Nos transportes públicos, todos se afastam quando alguém usa uma máscara, tosse ou se assoa. Na rua, as mulheres andam aos pares ou perto de locais públicos porque têm medo de ser molestadas. Os olhares que trocamos são lúgubres, desconfiados, tristemente desprovidos de qualquer tipo de empatia.
E na Magia? Qual a construção que fazemos da nossa personalidade mágica? Entramos no círculo sagrado com a nossa bagagem de limitações, medos e mesquinhez? Entramos para nos desnudarmos perante os Deuses? Pois todas as máscaras caem no círculo sagrado - e o segredo é que mesmo assim somos o que somos. Eventualmente merecedores, se a nossa honestidade superar as pequenas mentiras que contamos a nós próprios para nos sentirmos mais do que somos na realidade.
Pessoalmente, prefiro não fazer um rito se não consegui acalentar a minha chama interna o suficiente para que esta brilhe de modo desimpedido e claro perante os Antigos... Consideraria uma vergonha fazê-lo. Se não sei tomar conta de mim, para quê pedir ajuda aos Deuses que têm (com franqueza) mais que fazer?
O MEDO torna-te prisioneiro. Esta frase de Sofia Sá da Bandeira que li numa revista feminina ficou-me para sempre gravada na memória.
Mas claro que não se referia a um medo comum, desses medos que todos os dias nos vão encarcerando numa prisão dourada. Haverá sempre o medo quotidiano, como o medo que senti quando o doido se apercebeu de que eu estava no cimo da árvore e tentou subir para onde eu estava.
O Medo que nos come a alma pode constituir-se como a fonte maior de transformação da nossa vida. Se o identificarmos e o enfrentarmos, vencendo o desafio, saberemos que apesar de transformados somos nós e que perdendo o nosso Ego encontramos o nosso Eu.
Já passei por tudo o que defini (ainda muito pequenina) como o meu maior medo. E sobrevivi. Aceitei a perda. Cresci e encontrei alternativas. Por vezes, contra todas as probabilidades, tornei-me exímia naquilo que o meu medo me impedia de desenvolver.
Magicamente, como construímos o Medo? Como o enfrentamos? Recordo-me de uma ocasião em que, numa arena, lutava com um Ancestral que se ria e, por mais que eu tentasse lutar, ele era sempre superior, mais rápido, mais inteligente, mais astuto do que eu... É o Medo que nos traz a verdadeira dimensão dos nossos limites e também das nossas forças...
Nessa arena interna refiz-me de golpes imensos, dores que um dia pensei que seriam incomportáveis para mim. E afinal fui eu que me tornei mais aberta e tolerante depois de aprender com elas...
Neste momento, o Medo mudou para mim. Agora pertence ao Todo... medo de que cessem as memórias dos que habitam e habitaram a Terra antes de nós, medo de que se extinga a chama e que os homens com memória se tornem apáticos, indolentes e sem visão... medo de que a Arte pereça no Universo...
Identifiquem o vosso Medo e tomem a atenção necessária para o acarinhar. Depois enfrentem-no e aprendam a amar essa Sombra que se manifesta. Aceitar e estar presente combatendo permitem superar e transformar a paralisia que nos tolda a mente perante o Medo. Com uma vantagem secundária: afasta-nos da loucura. Prefiro ser a do cimo da árvore do que o louco que se diz com os pés bem assentes no chão - pelo menos sempre vejo mais longe.
Em liberdade,
Cynthia
Posted bySara Timóteo at 19:32 1 comments
Labels: medo, trabalho mágico
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